quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sobre critérios

Todos já ouvimos falar de critério, inclusive em se tratando de música e de história, especialmente em se tratando de crítica. Mas aquilo que temos sérias dificuldades de encontrar são aqueles que de fato usam de algum critério na mídia musical. Então surge a pergunta: o que é, afinal, ter critério?

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa define critério como “Faculdade de distinguir o verdadeiro do falso. Capacidade, autoridade para criticar”. A palavra tem raízes no grego “kritérion”, que pode ser traduzido como “padrão que serve de base para que coisas e pessoas possam ser comparadas e julgadas”. Significa ter capacidade e autoridade para criticar (Wikipedia). O professor José Lourenço de Oliveira, no artigo “Disquisição [investigação] sobre o vocábulo ‘critério’”, publicado no livro O Espírito Mediterrâneo (UFMG, 1951), observa que o vocábulo grego vem da raiz indo-européia “krei”, que significa “separar”. Podemos concluir que usar de um critério significa diferenciar. Separar o que serve para determinado propósito do que não serve.

Tanto o uso quanto o esclarecimento prévio acerca de quais são os critérios utilizados é defendido pelo poeta, tradutor e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998) no artigo “Sobre a crítica”, publicado na Revista Confraria nº 25 (e disponível aqui). Falando sobre literatura, ele escreveu que o ponto fraco da América Latina e da Espanha é uma tradição crítica não muito profunda – apesar de contarmos com críticos muito bons, incluindo o próprio Paz, os que ele cita no texto e os brasileiros Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Segundo Paz, “a crítica é o que constitui o que nós chamamos uma literatura, e que não é mais que a soma das obras, que o sistema de suas relações: um campo de afinidades e de oposições”.

Transcendendo a observação de Paz para a música, apenas trocando a palavra “literatura” do texto citado por “cena”: por aqui temos resenhas, e não críticas, e poucos críticos de fato criteriosos, ainda mais em se tratando de música popular. Ainda segundo Paz, “a missão da crítica não é de descobrir as obras, mas de as relacionar umas com as outras, de as ordenar, de indicar sua posição dentro do conjunto e em acordo com as predisposições e tendências de cada uma. Nesse sentido, a crítica tem uma função criativa: ela inventa uma literatura (uma perspectiva, uma ordem [uma cena, como nos convém incluir]) a partir das obras”. Isto é, a crítica cria diálogos entre as obras. E o bom crítico é aquele que dialoga com a obra – e não com os autores.

Teofrasto (372 a.C. - 287 a.C., sucessor de Aristóteles na escola peripatética) deixou escrito que "Um orador sem critério é como um cavalo sem freio". E a revista Modern Drummer Brasil acaba de realizar um exercício neste sentido, com a publicação da matéria “A História da Bateria no Brasil”: um cavalo – metáfora para o tempo no imaginário e na poesia de Alceu Valença, posto que falamos de história – bem domado.

Os critérios para a construção do artigo foram bem claros e expostos duas vezes, uma no editorial da edição nº 100 e outra na introdução do texto (aliás, você costuma ler editoriais de revistas? Deveria. É lá que estão a linha editorial e os pressupostos teóricos da revista – isto é, seus critérios). Os critérios para a pesquisa executada pela equipe MD podem ser resumidos com o nome de uma das seções da revista: “Só vale se tocar”. Os bateristas inclusos na história que a revista pesquisou e relatou são aqueles que produzem e trabalham, com música, arte e conhecimento; estudam, aliás, estudam muito; tocam, aliás, mais do que estudam, e transformam qualquer trabalho em algo digno; tem comprometimento e dedicação ao instrumento, e foco na música; e, sem dúvida, são absolutamente talentosos. Podemos resumir os critérios adotados a uma única palavra: relevância. Tornar-se relevante é fazer algo mais que executar bem o instrumento. É mudar o rumo da música e influenciar outras pessoas. Para se identificar os relevantes é preciso estabelecer um horizonte e verificar quem está aonde segundo tal horizonte.

Neste ponto encontramos de novo o “kritérion” – “padrão que serve de base para que coisas e pessoas possam ser comparadas e julgadas” – ou um horizonte. A quantidade de colaboradores é a evidência de que o critério é válido. A pluralidade de discursos lapida a informação. Ao contrário da internet – onde há inúmeros discursos (ironicamente) desconectados – foi publicado um único discurso, polifônico como uma fuga barroca, é verdade, mas único. Não há “achismos”. Não há parcialidade. Há um consenso multifacetado, um caleidoscópio de informações direcionado para a música mas, ainda assim, que reflete o que está acima do horizonte: “Só vale se tocar”.

Termino expressando minha admiração por um músico em especial, que colaborou maravilhosamente para o artigo: Azael Rodrigues. Seu texto “Música instrumental do Brasil + Vanguarda Paulista”, na página 42 da MD nº100, é de longe o melhor da edição. A maneira como Azael construiu o texto interconecta a revista física, o leitor, a internet, a expressividade e a história, uma mixagem digna de um filme de Quentin Tarantino. Isso, senhoras e senhores, é a crítica como arte.

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