segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ensaio é para covardes


Estive este fim de semana no Batuka! International Drum Fest. Foi um dos mais universais que já presenciei. Estiveram presentes a música latina de Quintino Cinalli e Robby Ameen, a modernidade do francês Damien Schmitt, a brasilidade impar de Vera Figueiredo, a pegada poderosa de Aquiles Priester e a musicalidade total de Renato Martins. Bruna Barone e Fabiana Fonseca homenagearam o band leader Gordon Goodwin, Tiago Sousa venceu o concurso de bateras e pudemos desfrutar da presença iluminada de Dom Famularo.

Um dos convidados, o aguardado Colin Bailey, não pode estar presente por que seu vôo vindo de San Francisco, foi cancelado devido a condições climáticas. Pra preencher o espaço, Dom Famularo fez uma ligação ao Colin em sua casa e tocou algumas músicas, acompanhado de Thiago Alves no baixo e Ricardo Castellanos ao piano.

Obviamente não houve ensaio. Thiago e Ricardo estavam lá pra tocar com Bailey e com Ameen. Eles e Dom conversaram um pouco durante a passagem de som, tocaram algumas passagens, mas nenhuma música inteira. E pronto.

No camarim eu conversava com o Ricardo (temos um amigo em comum) e com o Thiago (já gravei com vários bateristas com quem ele toca), e haviam mais algumas pessoas conosco, Quintino, Renato Martins, Aquiles, Walter Bondiolli, Athos Costa, Vitor Matias, Thiago Figueiredo e mais alguém da produção (perdão, não lembro de todos...). E então chegou Dom, entrou na roda e disse alto e claro: “Ensaio é para covardes!” Segundo ele, a música de verdade acontece no momento em que é tocada. Algo preparado antes mata a espontaneidade e a possibilidade daquele momento ser único. E engatou a contar um caso.

Dom contou que, quando tinha 16 anos e começava sua carreira em Nova York, recebeu uma ligação pra substituir um batera. A gig era de uma banda de negros e aconteceria no Harlem, bairro tipicamente habitado por negros (nos EUA a questão do preconceito é mais evidente que por aqui). Quando ele entrou no bar, percebeu que era o único branco presente. O band leader olhou pra ele e disse “Vou te chamar Whitey (branquelo). Aqui funciona assim: eu chamo a música pelo nome e atacamos. Não há ensaio, não há partituras. Se você conhece a música, toque. Se não conhece, toque também. Deixe passar uma volta e entre firme na segunda”. Logo que eles começaram a tocar a primeira música, o saxofonista bem ao lado de Dom olhou-o e disse: “Play black!” (“Toque como um negro!”). Ele deixou a músicalidade dos outros músicos tomarem conta de si e a gig foi fantástica. Sem ensaio.

Ora, eu sou um aficionado por ensaiar (e tenho certeza de que muitos de vocês também). É o momento em que percebemos se a música funciona ou não, se falta algo, se sobra algo, se ela suinga, etc. E disse ao Dom: “Mas eu gosto de ensaiar (por aquelas razões), e não me sinto covarde por causa disso!”. Sua resposta foi ótima: “Se você consegue ensaiar pra verificar se a música funciona, se está tudo ok, e consegue esquecer o ensaio antes de tocar pra valer, a música que você fará ao vivo será única, como se não tivesse sido ensaiada”.

Lembro de ter conhecido poucas pessoas com a alegria de viver de Dom. E fiquei muito feliz de tê-lo conhecido!

2 comentários:

Adriano Radael disse...

È isso ai Andre!
Esse negocio de ensaiar nao ta com nada!
Dalhe Dom!!!

Nayra Janaina disse...

trabalho com artesanato e faço baterias em EVA, já me tornei seguidora e aguardo sua visita!